Domingo, 16 de Dezembro de 2007

O Melhor Presente de Natal

 

Nevava tranquilamente naquela noite. A cidade estava coberta por um manto branco, bastante espesso, que brilhava devido aos reflexos das luzes de natal que enfeitavam as ruas.

O frio apertava cada vez mais tornando-se impossível de ser suportado e provavelmente seria por isso que Martim era a única pessoa que se encontrava na rua. Estava sentado no banco do jardim, vestido com a roupa mais quente que tinha no seu guarda-roupa, e enquanto tentava aquecer as suas mãos esfregando-as uma na outra, contemplava a pequena fonte que se erguia no centro do parque, a fonte à qual todos chamavam a “fonte dos desejos”.

Tinha saído de casa sorrateiramente, sem que os seus pais dessem por isso. Se lhes tivesse pedido para sair nunca teria ouvido uma resposta afirmativa. Afinal de contas era apenas uma criança de oito anos.

Mas nessa noite precisava urgentemente de pedir um desejo à fonte, era a única forma de o poder ver concretizado. No dia seguinte realizar-se-ia a grande festa de natal da sua escola e haveria um grande número de actividades bastante divertidas, desde teatros, a jogos lúdicos, danças e, no fim, todas as crianças entregariam aos pais os presentes que compraram com o dinheiro que tinham junto nos últimos meses. Cada criança tinha uma caixinha onde metia uma pequena quantia dada pelos pais, a cada final de semana, para no Natal comprarem uma pequena lembrança para oferecer aos mesmos.

Martim estava infeliz por não poder oferecer aos pais um presente enorme, bonito, que eles tanto mereciam por serem o que ele chama de “os melhores pais do mundo!”. Seria a única criança na festa a não entregar nada aos pais e sentia-se triste não só pelos seus colegas gozarem com ele por não ter dinheiro para comprar um presente, mas principalmente por não poder mostrar aos pais a sua alegria em dar-lhes um presente, em oferecer-lhes algo que ele próprio tinha escolhido para eles. A sua família era bastante carenciada e por isso os pais não podiam contribuir para a sua caixinha, que neste momento permanecia vazia, no seu colo.

Martim pegou na sua caixinha, pintada por ele próprio de vermelho e cor de laranja, e aproximou-se da fonte.

- Eu gostava muito de comprar uma prenda para os meus pais, por favor, faça aparecer na minha caixinha algumas moedas. Por favor!!” – disse ele fechando os olhos e erguendo a caixa na sua mão direita.

Passados alguns segundos, Martim abriu os olhos e espreitou para dentro da caixa. Nada tinha acontecido. A caixinha continuava vazia. Tentou novamente, desta vez demonstrando algum desespero.

- Vá lá, por favor…são só algumas moedinhas. Eu queria mesmo oferecer um presente bem bonito aos meus pais amanhã na festa de natal. Só algumas moedinhas…por favor! – disse ele com os olhos fechados firmemente, e abanando a caixinha na sua mão.

- Não vale a pena, não vai acontecer nada. – disse uma voz feminina.

- Quem é a senhora? – perguntou Martim assustado, recuando alguns passos e escondendo a caixa atrás das suas costas.

- Sou apenas alguém que vive aqui neste jardim. – disse a mulher, de cabelos brancos e vestida com um grande manto cinzento que a cobria desde o pescoço até aos pés.

- A senhora vive aqui no jardim? – perguntou Martim espantado.

- Sim, é isso mesmo! – disse a senhora piscando-lhe o olho.

- Então é uma mendiga, não é? – perguntou ele recuando mais alguns passos.

- Mendiga? Porque dizes isso? – perguntou a mulher fazendo cara de ofendida.

- Porque os meus pais disseram-me que as pessoas que vivem assim nos jardins e nas ruas são os mendigos.

- Hum…está bem, eles até podem ter razão, mas não, eu não sou uma mendiga – disse a mulher sentando-se no banco. – Não tenhas medo, senta-te aqui ao meu lado.

- Eu tenho que ir embora…

- Mas não querias pedir um desejo à fonte?

- Sim, mas eu já pedi e ele não se realizou… – disse Martim virando as costas e começando a andar em direcção à estrada principal.

- Martim…

- Como é que sabe o meu nome? – perguntou Martim parando repentinamente e encarando a mulher.

- Isso não interessa, o que interessa é o que tenho para te dizer. – disse ela olhando-o com uma expressão serena.

- E o que é que tem para me dizer?

- A melhor prenda que podes oferecer aos teus pais e a qualquer outra pessoa de quem gostas, está dentro de ti.

- Dentro de mim? – perguntou Martim envergando uma expressão de incompreensão.

- Sim, dentro de ti. Não se compra, não se mede, não se pesa, apenas se sente e é a prenda mais valiosa que podemos dar a alguém. – disse a mulher piscando-lhe o olho.

A mulher levantou-se do banco e começou a caminhar na direcção contrária à do Martim. Este não disse nada, permanecendo imóvel enquanto a observava a desaparecer na escuridão.

O dia da grande festa de natal tinha chegado e esta estava a ser um sucesso. Muito teatro, muita música, muitos jogos, comida e doces à mistura. Martim não estava a divertir-se tanto quanto queria pois os seus colegas lembravam-no a cada minuto que ele não tinha um presente para dar aos pais porque era pobre.

O momento da entrega dos presentes tinha chegado. Martim deixou-se ficar junto dos pais, enquanto os seus colegas subiram ao palco, cada um com o seu presente na mão, e faziam agora uma fila, enquanto os pais se posicionavam junto do palco.

- Filho, não fiques triste por não estares ali, está bem? O pai e a mãe não precisam de presentes. – disse o pai agachando-se junto de Martim.

- Mas eu tenho um presente para vocês! – disse Martim sorrindo e começando a correr para junto dos seus colegas.

Quando chegou a sua vez, Martim chamou os pais para junto do palco, sentou-se perto deles, tirou a sua caixinha que estava por debaixo da sua blusa e abriu-a. Todos olhavam para ele pois ninguém estava à espera que ele tivesse um presente para oferecer.

- Tenho aqui vários presentes, mas eles são invisíveis…como diz uma amiga minha, apenas se sentem… – disse Martim mostrando a caixa aos pais. – Eu oferece-vos infinitos beijos, infinitos abraços, infinitas festinhas, a minha preocupação, o meu respeito e a certeza de um amor para sempre. E são estes os meus presentes, e dou de coração…Feliz Natal!! – disse Martim atirando-se para cima dos pais.

E ouviram-se palmas como não se tinham ouvido até então naquela festa. E observaram-se lágrimas como só uma criança com tão puros sentimentos consegue arrancar a qualquer pessoa.

 

Patrícia Santos

15/12/07

sinto-me: Congelada
música: All I Want For Christmas Is You - Mariah Carey
publicado por a_beautiful_smile_has_a_troubled_soul às 11:59
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